Jornalista cultural · São Paulo

Reinaldo Rinaldi

Escrevo sobre música, cinema, moda e comportamento, e sobre o jeito como a gente vive a cultura.

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Sobre

Sou jornalista, e é no jornalismo cultural que está minha maior vocação. A música veio antes da redação: estudei performance musical, dei aulas de quatro instrumentos e toquei em bares pelo estado de São Paulo.

Escrevi para as editorias de Música, Moda e Cinema do portal Festival Teen, fui coautor de uma reportagem sobre o coletivo audiovisual Projeto Encosta publicada pela Emerge Mag e escrevo ensaios sobre música e consumo cultural. Me interessa o que está em volta da obra: como as pessoas ouvem, compram, colecionam e se relacionam com a arte.

Hoje sou coordenador de conteúdo na Análise Editorial, onde apuro, entrevisto, edito textos da equipe e fecho edições especiais.

Lado A

Cultura

Críticas, reportagens, perfis e análises sobre música, cinema, moda e cultura pop.

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    O perfil de Eduardo Pedras, dono do bar onde comecei a tocar aos 17 anos, e uma defesa do bar brasileiro como patrimônio cultural.

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    Projeto Encosta desafia padrões da cena audiovisual

    O coletivo do Jardim Dona Sinhá, na zona leste de São Paulo, premiado no Perifa Lions, em Cannes. Selecionada pela Emerge Mag em parceria com a São Judas.

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  5. A5Guia e críticaCinemaFestival Teen · jul. 2025

    Tudo que você precisa saber sobre Jurassic World: Recomeço

    Elenco, trama e crítica do filme, com destaque para as representações de masculinidade no cinema de ação.

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    Joe Jonas anuncia data de lançamento do seu novo álbum solo

    O lançamento de "Music For People Who Believe In Love", com participação de Luísa Sonza.

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  7. A7ExplicativoE-sportsTem-Meio Report · set. 2022

    Entendendo a ESL Pro League

    Um guia para quem chegou ao Counter-Strike na pandemia: o Intel Grand Slam, a era Astralis e a chance da FURIA.

Lado B

Outras coberturas

Na Análise Editorial, onde sou coordenador de conteúdo, apuro e escrevo sobre mercado, negócios e direito.

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    O custo baixo e o código aberto da IA chinesa, e o que eles significam para o setor jurídico.

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Ficha técnica

Formação
Jornalismo, Universidade São Judas Tadeu (2022–2026)
Música
Performance musical, EM&T (2020–2022). Professor de bateria, guitarra, baixo e violão.
Editorias
Música, cinema, moda e comportamento
Formatos
Crítica, reportagem, perfil, ensaio, entrevista e notícia
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Aberto a colaborações, frilas e vagas em veículos de cultura.

reinaldolazaririnaldi@gmail.com
A2 · Perfil

Don Stone's: origens de um bar brasileiro

Reinaldo Lazari Rinaldi · Guarulhos, 14 de setembro de 2022

O Don Stone's no dia da entrevista com Eduardo Augusto Martins Pedras.
O Don Stone's no dia da entrevista com Eduardo Augusto Martins Pedras.

É uma quarta-feira fria em Guarulhos e acabo de estacionar o carro na rua lateral do Don Stone's, meu bar preferido na cidade. Quando chego, pela primeira vez com uma mochila nas costas e não um violão, cumprimento a clientela regular e conhecida do bar. Lá é sempre assim, como me confirmaria Eduardo — nosso entrevistado — mais à frente. Os clientes se tornam amigos, sempre fiéis e apaixonados pelo ambiente. Sou recebido por Cacá, irmão mais novo de Eduardo, que está sentado no sofá, com uma cerveja na mão e mexendo no celular. Olho para ele e digo: “Vai trabalhar, safado!”. Cacá abre um sorriso e me responde que já está trabalhando — imagino que na parte de controle de qualidade — e me abraça. Pego um refrigerante na geladeira, sento na mesa à sua frente, começo a conversa e questiono sobre o paradeiro de meu entrevistado. Du tinha saído para comprar cigarro. Fico ali alguns minutos conversando com o jovem gentil e de humor ácido — que me diz que, como na tradição dos pais brasileiros, Du pode não voltar —, que se tornou meu amigo ao longo dos anos. Após alguns minutos, sento numa mesa do lado de fora do bar. Fico ali por pouco tempo checando meu gravador e anotando alguns pontos-chave da entrevista, e é então que vejo meu entrevistado atravessando a rua e abraçando, um a um, os poucos clientes que estavam do lado de fora numa noite gelada de quarta-feira. Ele chega com seu cigarro em mãos e com o sorriso de sempre no rosto, me abraça e diz: “E aí, nego, tá bem? Saudade de você”, com sua gentileza e carisma costumeiros. Conversamos um pouco e logo pergunto se podemos começar a entrevista.

“Claro, nego! Você sabe que eu adoro falar!”.

Explico um pouco sobre o que é um perfil jornalístico e o período que quero abordar da vida de Du. Ligo meu gravador, posicionado no centro da mesa, e começo a entrevista que se estende por duas horas, enquanto Eduardo acende seu segundo cigarro. A fumaça dança no ar gélido, iluminada pela luz de um poste na rua, contornando a face de meu entrevistado, agora com um semblante sério, que narra sua história como se estivesse em um podcast — mesmo eu tendo explicado que o áudio não seria usado e só serviria para minha consulta —, a princípio preocupado com a linguagem e fazendo uma introdução bonita e sentimental que trata de nosso relacionamento e de seu apoio à “minha nova profissão”, o que acho carinhoso e ouço feliz, sem interromper.

Eduardo Augusto Martins Pedras em frente à entrada de seu bar, em Guarulhos.
Eduardo Augusto Martins Pedras em frente à entrada de seu bar, em Guarulhos.

Relação pessoal do autor

Escrevi algumas versões desse texto em que eu não aparecia como personagem, mas o melhor jeito de retratar a figura de Eduardo é mostrando a relação que desenvolvi com ele e seu bar ao longo dos últimos quatro anos. Du me deu uma chance de tocar em seu estabelecimento mesmo sabendo que eu era muito novo, com pouca experiência em bares — afinal, eu tinha 17 anos — e cometendo diversos erros na regulagem do som, muitas vezes deixando alto demais para os clientes. Como Du insiste em dizer sempre, eu era cru, mas ele sabia que eu “era bom e pegaria o jeito rápido”. Hoje, posso dizer que sou um dos músicos que mais lota a casa e acho que faço um trabalho até que decente. Talvez nada disso fosse verdade sem a confiança desse homem, que, ao longo dos anos, passou a me tratar como um irmão mais novo. Seu bar também tem um lugar no meu coração, pois nunca me foram pedidas alterações de repertório e nunca tive que ir para lá decepcionado por não poder tocar o que eu queria. É o tratamento intimista de Du com seus clientes e suas atitudes de respeito e irmandade que fazem desse bar um lugar tão especial. É por isso que vou lá em momentos tristes e felizes, e foi lá que comemorei meus últimos dois aniversários. A choperia passou a ser minha segunda casa e, nos momentos mais duros da pandemia, era esse o local que mais atacava minha saudade. Nem sei quantas vezes mandei mensagens para Du ou seu irmão mais novo com saudade e preocupado com a situação do bar durante esse período. O Don não me conquistou com um ambiente pomposo, cachês altos ou cervejas caras, mas sim com o sentimento de pertencimento, o tratamento quase familiar que, em muitos lugares, se perdeu, mas se mantém vivo e quente no bar gerenciado pelos dois irmãos.

Tudo começa pelo amor ao futebol

Eduardo Augusto Martins Pedras, paulista nascido na Vila Matilde em 1984 e criado no Tatuapé, vem de uma família trabalhadora e de classe média. Seu pai Adermil era advogado e sua mãe Maria, professora de Biologia na escola São Judas Tadeu, na Mooca, o que dá a Eduardo a oportunidade de estudar em uma boa escola como bolsista. Du segue seus estudos sem nunca ter pego uma recuperação, até que no último ano acaba ficando com notas baixas justamente em biologia, o que ele acha cômico e ri ao contar. Forma-se na escola com 17 anos e, por amor ao futebol, em 2003 resolve fazer faculdade de Educação Física na Universidade São Judas Tadeu. Mas Eduardo se decepciona ao longo do curso:

“Cursei, terminei e não era pra mim. Acho que isso acontece com muitos jovens. Dá aquela dúvida na metade e você fala ‘ah, não gostei, mas já cheguei até aqui, agora vou terminar’. Nunca trabalhei com educação física, nada, nada mesmo. Fiz alguns poucos estágios de professor, mas muito raso”.

“Mas o que te fez sentir que não era pra você?”, pergunto.

“Ah, acho que as pessoas, a minha turma talvez. Eu sempre gostei de tomar uma cervejinha, dar um rolê e na minha turma não tinha esse pessoal. Aí eu não me enturmei. Também entrei pensando ‘ah, eu gosto de jogar bola, vou fazer educação física’, afinal, eu vivo futebol, respiro futebol e tudo mais. Sempre pratiquei e pratico até hoje, aí entrei pensando em vislumbrar algo dentro do esporte. Só que aí começou aquele negócio de mexer com patologia humana e tal, e é um negócio que eu tenho meio asco, meio nojinho tá ligado? Realmente não era o que eu esperava”.

Ainda cursando a faculdade, surge a oportunidade de ter uma quadra de futebol. Um cliente de Adermil — advogado e pai de Eduardo — queria vender seu estabelecimento e Adermil propõe para o filho: “depende de você, se quiser a gente vai nessa junto. Você faz educação física, gosta de futebol… Só que assim, você que vai tocar, e você é novo, moleque de prédio e quadra é foda. Tem que aguentar os bêbados, tem o bar e às vezes tem briga. Mas se quiser eu entro com o dinheiro, te ajudo e você trabalha”. Eduardo aceitou o desafio e passou a gerenciar o bar e a quadra. E é assim que começa sua história de balcão, bar e sua facilidade em se relacionar com pessoas.

“A quadra mudou minha vida, lá você conhece do mais rico ao mais pobre, porque o futebol tem isso, em campo todo mundo é igual.”

Du passou 10 anos trabalhando na quadra de nome Juball, no bairro Gopoúva, em Guarulhos, no endereço que hoje dá lugar ao estacionamento de um Hortifruti. O trabalho se estendia de domingo a domingo, mas para Du isso era bom, conquistou certa independência financeira, conseguiu comprar seu carro e se mudou junto com a namorada que hoje é sua esposa e mãe de seus filhos. Ao longo do período, Eduardo começa a trabalhar como corretor de imóveis, conciliando a nova profissão com a gerência da quadra, até que recebe uma proposta de compra irrecusável e vende seu estabelecimento. Mas a calmaria não durou muito: depois de seis meses Du não aguentava mais chegar cedo em casa e não ter o que fazer. Após 10 anos trabalhando turnos de mais de 12 horas por dia, a rotina de sentar no sofá e assistir novela não satisfazia sua inquietude, e, ouvindo antigos clientes e conhecidos questionarem frequentemente sobre a possibilidade de uma nova quadra, percebe sua importância neste mercado e resolve correr atrás de um novo estabelecimento para seguir seu ramo no futebol amador.

A quadra que muda o jogo

É então que, em 2010, Eduardo e seu pai entram em contato com “Celinho”, presidente da quadra 18 de Fevereiro, e conseguem fechar negócio para transformarem a quadra de terra em uma de society, que podem gerenciar pagando uma taxa mensal ao clube. Essa é a quadra que mudaria sua vida. A 18 de Fevereiro ficava a apenas dois quilômetros da comunidade São Rafael, o que, para Eduardo, significava contato com um público diferente do seu costumeiro, o que surpreende de cara e gera mudanças:

“No centro da cidade eu tinha muito problema com inadimplência no bar. Cara que falava ‘marca aí pra mim’ e depois reclamava que não foi isso que ele bebeu e coisas do tipo. Na quadra nova eu lidava com pessoas mais simples, e esse tipo de coisa não acontecia, porque esses caras não têm uma condição financeira luxuosa, então ele sabe quanto ele bebeu. E também, pra esses caras a coisa mais importante que eles têm é o nome. É um nome a zelar. As pessoas faziam churrasco e elas mesmas limpavam a churrasqueira, coisa que não acontecia antes, o pessoal deixava tudo bagunçado e foda-se, você é meu serviçal, limpa aí, sabe? E esse tipo de atitude começou a me obrigar a ver mais um lado social das coisas. Fiz amizades no bar que me diziam ‘vamo lá na comunidade que eu vou fazer o aniversário do meu filho, e você é meu convidado de honra’. Era um carinho e uma educação muito diferente, isso mudou minha cabeça. As pessoas davam valor a uma boa conversa. Ninguém quer saber quanto de dinheiro você tem no bolso. Querem saber como tá sua família, seus filhos, se você tá bem, pedem um serviço, uma indicação. E isso foi mudando alguns pensamentos antigos, eu comecei a me interessar por política e querer saber mais. Nessa época eu já tava com uma condição financeira um pouco melhor e tinha TV a cabo, e comecei a curtir muito ver documentários. Também tive acesso a mais filmes diferentes, filmes históricos, e entrando nessa falei ‘quer saber, vou fazer uma faculdade de história’. Foi uma curiosidade, uma sede de conhecimento. E aí foi uma junção, comecei a conhecer um lado diferente da vida que eu costumava viver, lá na comunidade, e tava na faculdade de história. Comecei a entender porque que a vida era desse jeito. Ver várias coisas que eu era ultrapassado no pensamento, preconceitos que eu tinha achando que era brincadeira, ou coisa do dia a dia. Aprendi a enxergar as pessoas de um modo diferente. Todas essas coisas me fizeram um homem muito melhor. Quero sempre entender o lado da pessoa, como ela pensa, por que ela pensa dessa forma. Assim você começa a viver com mais paciência e menos ódio. A faculdade de história foi um marco na minha vida. Os questionamentos são inevitáveis, você pensa ‘por que as pessoas daqui são diferentes das de lá?’. Não tem como não mudar, eu vivi coisas muito fora da minha bolha, tipo, entrar numa casa de uma pessoa muito humilde e o cara não ter banheiro sabe? Tem que fazer suas necessidades numa lata e jogar no rio. Eu nunca tinha visto isso na vida”.

Após 16 anos numa rotina de trabalho intenso de domingo a domingo, lidando com muitas pessoas e arcando com uma manutenção muito cara, Du lembra de um sonho antigo dele e de seu pai: ter um barzinho. Um lugar menor, que não tenha tanta manutenção e que tenha um chope legal. Após uma conversa em família, o irmão mais novo de Eduardo, Cauê Marcelo Martins Pedras — o Cacá — se anima com a ideia e diz que adoraria trabalhar com o pai e o irmão no bar. Os três começam a procurar um ponto comercial e encontram um de esquina, na Rua Cônego Valadão, 1066. Eis que nasce o Don Stone's, nome que surge como uma homenagem ao pai Adermil, por conta do sobrenome “Pedras”, que em inglês se tornou Stones.

O Don Stone's Lounge Pub

Da esquerda para a direita, Eduardo e Cauê em frente à entrada do Don Stone's.
Da esquerda para a direita, Eduardo e Cauê em frente à entrada do Don Stone's.

O bar brasileiro é diferente de todos no mundo. No Brasil, o bar é parte da rua, é um organismo vivo, a parte de dentro está interligada com a de fora. A paixão do brasileiro pela rua faz com que o bar seja assim. O Don Stone's nasce com a proposta de ser um lugar diferente, mas com raízes brasileiras. Um lugar em que você pode sentar e ter uma boa conversa, possa fazer amigos, tomar um chope diferente e ouvir um rock, um blues, um folk ou uma MPB. A mistura perfeita entre uma choperia e um boteco tradicional. Apesar de Eduardo amar o bar raiz brasileiro, com cerveja de litro, pinga e samba, queria trazer algo diferente, atingir um público que quisesse tomar um chope bom e ainda se sentir confortável, não tendo que pagar os preços dos pubs à moda estrangeira de São Paulo. Também um público mais calmo, afinal, Eduardo tinha passado 16 anos trabalhando com pessoas diferentes e tendo que lidar com gente que bebe demais e fica briguenta, o que ele diz que acontece menos no bar que tem hoje.

“Muitos diziam pra gente que não daria certo, que a Vila Augusta não é um bairro pra choperia, isso o pessoal mais antigo do bairro, mas você vê? Sábado já é nosso aniversário de 5 anos, resistimos durante a pandemia, não tem maior prova que isso”.

Eduardo é extremamente apaixonado pela profissão. Gosta de estar no balcão, de interagir com as pessoas e de ver a conexão que elas partilham com a música ao vivo.

“Eu sempre quis que tivesse música ao vivo aqui, desde o começo. Depois de alguns erros, começamos a acertar nos músicos. O nível subiu e agora eu não podia mais contratar qualquer um, porque as pessoas reclamavam. Agora só tem músico bom aqui. E tem um negócio na música ao vivo, é lindo, você sente bater no peito, de ver o cara ali fazendo na hora, na sua frente, e fazendo bem. O bar todo partilha essa conexão”.

“Du, o que você acha que faz o bar brasileiro ser diferente?”

“O bar brasileiro é mágico, é um patrimônio cultural. A gente pode tomar uma cerveja na calçada, a gente fica até de madrugada tomando uma com os amigos, não tem pressa, não tem hora pra acabar. O cara pode sair do trabalho direto pro bar ou pode querer passar em casa, comer um negócio, tomar banho e ir, o bar sempre tá lá. É uma liberdade que não acho que seja tão comum em outros países, lá fora sempre tem hora pra acabar. E isso aproxima muito as pessoas. Aqui o cara de direita tá abraçado com o de esquerda cantando junto Jesus numa moto e o Che Guevara dos acostamentos, e ele nem sabe o que tá acontecendo, só tá feliz de estar ali. É uma loucura, só aqui no Brasil acontece essa porra. Lá fora tem o bar de tal grupo, de tal tipo de pessoa, aqui tá todo mundo junto e se divertindo, é uma bagunça, mas uma bagunça maravilhosa. É um testemunho da democracia, sabe? As mudanças de verdade começam nesse tipo de lugar. E o cara não vai no bar só pela cerveja. Ele vai pelo rolê, vai mesmo se a cerveja for ruim, o povo tem que ser legal, a pessoa vai pra se divertir”.

“E o que você sente que é único do dono de bar brasileiro?”

“O dono de bar brasileiro é um artista. É um cara de uma cultura ímpar, porque ele conhece todo tipo de gente que você pode imaginar. Tem que saber falar de tudo, tem que sentir o ambiente, saber ser duro em certos momentos e ele tem que interagir bem com as pessoas. Tem a função de conectar as pessoas, seja colocando um músico pra tocar ou apresentando as pessoas umas pras outras mesmo, chamando pra conversa, incluindo a pessoa no rolê. Tá gravando ainda? Garante que vai sair isso aqui porque é o mais importante: o bar bom não é o lugar com a melhor cerveja. O bar bom é o que o cara pode ir sozinho. Ele não tem que se preocupar com chamar amigo pra acompanhar ele, pode ir despreocupado porque sabe que os donos são gente boa, conhece os clientes, sabe que tal cara vai estar lá, que tal músico vai tocar, que vai ser bem tratado, que vai ter com quem conversar. Esse sim é o bar bom, o bar que acolhe, e é o que eu tento fazer aqui”.

Um dos termos que Eduardo usa para falar de seu bar é confraria. Confraria é uma associação laica que funciona com religiosidade, como uma irmandade. Acho o termo interessante, pois é assim que o público se relaciona com o bar. Seus clientes fiéis sempre separam um tempo para passar lá, defendem o bar com unhas e dentes e, geralmente, se conhecem. É como uma comunidade especial que se reúne por algumas horas naquele lugar. Em muitos casos o contato semanal não é suficiente, como no caso de Gabriel, um homem que todo cliente do bar já conheceu, que serve para muitos como um pilar do local. Sabe-se que ele vai estar lá e quando não está, sua falta é sentida. O Gabriel é um exemplo, mas esta “confraria” tem diversos pilares, os principais sendo Du e Cacá; depois, clientes como Gabriel; e, por fim, os músicos regulares, que acabam se tornando parte do folclore único daquele lugar. Esse tipo de relação é a especialidade do bar brasileiro. Posso dizer com propriedade que o termo é adequado, e é uma honra fazer parte da Confraria Don Stone's, o bar de nome estrangeiro que carrega consigo uma brasilidade ímpar.

A7 · Explicativo

Entendendo a ESL Pro League

Reinaldo Lazari Rinaldi · Publicado no blog Tem-Meio Report, setembro de 2022

Os jogos da ESL Pro League Season 16 estão acontecendo desde o começo de setembro e acabam dia 2 de outubro. Mas, com tantos fãs e jogadores mais novos — muitos deles começaram a acompanhar o cenário competitivo apenas na pandemia —, é preciso explicar a importância de campeonatos como esse e sua ligação com outros torneios.

Intel Grand Slam

O Intel Grand Slam foi criado pela Intel em parceria com a ESL em 2017. A ideia era premiar o time que tivesse um desempenho dominante na temporada, de forma que a primeira equipe a ganhar 4 títulos em dez competições seria premiada como campeã do Grand Slam e receberia 1 milhão de dólares. Existem algumas regras para garantir que a jornada não seja fácil: se a equipe ganhar um dos campeonatos e passar 10 eventos sem novos títulos, a contagem é zerada. Ainda, existe um bônus de 100 mil dólares para a equipe que conseguir vencer, numa final, um time que já tenha 3 títulos na contagem da temporada. É uma corrida tanto para o milhão quanto para o pico do Counter-Strike competitivo.

O primeiro time a conquistar tal prestígio foi a Astralis. A tão comentada “era Astralis”, considerada de 2018 a 2019, tem origem no primeiro Grand Slam, quando a equipe dinamarquesa liderada por Lukas "gla1ve" Rossander conquistou a DreamHack Masters Marseille 2018, ESL Pro League Season 7, Intel Extreme Masters XIII - Chicago e ESL Pro League Season 8. Além dos títulos conquistados em 2018, o time ainda se consagrou, em 8 de setembro de 2019, como a primeira equipe tetracampeã mundial, marco único na história do jogo.

O segundo Grand Slam foi conquistado pela Team Liquid, em apenas 63 dias, ganhando 4 campeonatos consecutivos. Já a terceira temporada talvez esteja mais fresca na memória de novos torcedores. Ocorreu de 2019 a 2021 e foi conquistada pela Natus Vincere, o time do jogador considerado o GOAT (Greatest Of All Time): Oleksandr "s1mple" Kostyliev.

O que isso tem a ver com a Pro League?

A ESL Pro League é um dos principais campeonatos do Intel Grand Slam, que, nesta temporada (season 4), é composto por campeonatos clássicos como o IEM Katowice, IEM Cologne e o Major. O time mais próximo de ganhar este Grand Slam é a FaZe Clan, que já possui 3 vitórias e ainda tem 6 chances para conquistar o título, com seus únicos concorrentes sendo Cloud9 e Team Vitality, ambas com apenas uma vitória na temporada. Geralmente o Grand Slam é composto por duas ou três seasons da Pro League (nesse caso, a season 15, 16 e 17).

E os brasileiros?

O time brasileiro que chegou mais perto de conquistar um Grand Slam foi a SK Gaming, time que trouxe os dois únicos mundiais que o Brasil possui. A equipe lendária que contava com TACO, coldzera, fer, fnx e FalleN conquistou na primeira temporada do Grand Slam duas vitórias: Intel Extreme Masters XII - Sydney e ESL One: Cologne 2017. Apesar do ótimo desempenho, o time foi ultrapassado na corrida pela Astralis.

Mas o sonho ainda não acabou. Nesta Pro League, a FURIA tem tido um ótimo desempenho e, se ganhar, entra na corrida junto com Cloud9 e Team Vitality para tirar o Grand Slam da FaZe Clan (que está a uma vitória do título). Os brasileiros enfrentam hoje a Outsiders. O jogo está marcado para as 10h30 e, se vencer, a FURIA disputará as quartas de final contra a Team Vitality, partida em que poderemos assistir à disputa dos dois jogadores com maior rating do campeonato: KSCERATO (1.41) x ZywOo (1.45).